BELEZAPURA

Santo Antônio de Gurupá é uma uma beleza. Na foz do Rio Amazonas, pura ainda, quase isolada do mundo, tem histórias que nos devolvem o orgulho de brasilidade. Fazer este blog é a forma que temos de resgatar Gurupá do fundo do rio do esquecimento, como um dia fizeram seus heróis anônimos com o barco "Livramento", numa das muitas e emocionantes histórias da cidade, e, assim, pelo menos em parte, revelar ao Brasil e ao mundo, por mais escondida, do que é feita a sua dignidade.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Impressões do alto



Depois de um evento onde os primeiros contatos se estabeleceram, Mariângela correndo(como sempre) com o telefone em linha direta, tomamos contato com Mané Chico, o Prefeito de Gurupá, e um professor da UNB (o iniciador do processo na Região), começamos a ver que lidávamos com gente epecial. Um Brasil que já não víamos mais, de resistência pacífica, de integridade, que vê as dificuldades como barreiras a derrubar, mas sobretudo de gente que sabe o que quer e respeita sua ética, ama seu povo e sua região. Acima de tudo, que conhece e sabe o que é melhor para ela. Independentemente da fórmula partidária, a politica é feit: cuida/preserva, talvez não da forma que os meios mais prósperos permitem, mas a forma que encontram de fazê-lo é feita. É gente que faz.
Desde o primeiro instante, quando surgiu o convite para desenvolvermos o trabalho na Amazonia, sabíamos, pelas pesquisas de muitos dias, que fizemos primeiramente via internet, depois através de amigos que indicavam outros amigos,que indicavam professores, especialistas, enfim pessoas que já, de alguma forma, estiveram ou trabalharam para a Região, víamos como um trabalho de extrema responsabilidade, por se tratar do "pulmão do mundo", uma região onde qualquer interferência poderia trazer consequencias positivas, ou muito negativas. Estamos falando de Região Preservada, foz do Amazona, a sensibilidade e a pesquisa aí eram fundamentais, para o bom exito do trabalho.
Desde nossa primeira andança por este país imenso(que adoramos), descobrimos que a troca de informações não deve tentar modificar a forma de vida escolhida, seja cultural ou adaptacional de cada povo, de cada grupo, de cda pessoa (estas pessoas estão na região a mais tempo); com suas dificuldades, com sua criatividade, com seu modo de ver) precisamos sim, juntos, e a partir do ponto de vista de cada grupo de pessoas, analisar como caminhar mais produtivamente em busca de resultados desejados por elas. É importante, que a região procure e ela seja a guia de seus anseios, para que o trabalho não se transforme em aculturação. Daí nossa busca por historiadores e antropologos, e nossa decisão de trabalharmos sob a luz das tecnicas de Paulo Freire,nesta primeira aproximação.
Munidos de muitos conhecimentos de outros, tomamos o avião. A bagagem que, deveria ser reduzida ao mínimo necessário, o espaço era mínimo também. Nosso foco, especificamente, era conhecer o Forte, talvez a primeira edificação conhecidade e comum a todos os estudos que lemos. Sabiamos que ali, em suas entranhas, estava grande parte da historia de Gurupa, a ser cuidada, e dados importantes poderiam ajudar a este povo a conhecer seus antepassados e ter ainda mais consistência em em sua caminhada. Unir historia a ação. Acreditamos que é esta é uma forma de compreensão menos invasiva e mais efetiva, nos sentido de perdurar mai. Nesta caminhada, depois de percorrermos uma região enorme, passarmos praticamente sobre toda ilha do Marajó, com seus desmatamentos abusivos e indiscriminados, seus alagados, suas fazendas de búfulos, uma mata imensa, uma barulho insurdecedor dos motores, que graças a Deus , não nos permitiu ouvir as propostas indecorosas feitas pelos madereiros que viajavam conosco ao prefeito que, da metade da viagem em diante, pegou uma carona neste mesmo voo até Gurupá: só via sua indignação em relação aos madereiros e percebi que, mineiramente, se saiu muito bem de todas as investidas. Ali, logo de cara, antes mesmo de chegar à Gurupá, percebemos que a preservaçõ era uma luta constante dessa gente. E a partir daí até agora rezamos para que não se entreguem às facilidades destruidoras.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Aviadores de primeira viagem.






O sol acabara de sair e deitava uma luz oblíqua sobre as poças de água da chuva que lavara a cidade de Belém na madrugada. Era verão no norte. Estação em que chove todo dia. No inverno chove o dia todo. O sol era implacável, mesmo sendo tão cedo. Fôramos dormir tarde e mal dera tempo para tomar um banho e um café reforçado. Eu e Malou já havíamos morado por dois anos em Belém e no dia anterior, além de articularmos alguns preparativos que não tínhamos conseguido acabar em S. Paulo, tínhamos, sem sucesso encontrar remanescentes dos velhos tempos de Grupo Empresarial Belauto. Não encontráramos mais ninguém..., dispersados após a morte de Jair Bernardino, seu Presidente, num desastre de avião de que foi vítima, juntamente com seu irmão, natural herdeiro do império. O céu era de brigadeiro. Bem oportuno para nos enfiar em um “minuano”, o avião que a única empresa de táxi aéreo que atende aquelas bandas disponibilizou para nossa viagem até Gurupá. A viagem teria três escalas. A primeira em Soure, já na Ilha do Marajó. A segunda em Breves e a terceira em Porto de Moz, vizinha a Gurupá. Em Soure recolhemos mais três passageiros. Madeireiros do Paraná e santa Catarina com destino a Porto de Moz. Na segunda escala pegamos o Prefeito de Gurupá, O Nogueira do PT que graças à deus era magrinho o suficiente para encarar a superlotação do nosso aviãozinho. Gurupá é, até agora uma ilha de preservação cercada pela voracidade das madereiras por todos os lados, principalmente pelo lado de Porto de Moz. Nessa viagem tivemos um instrutivo e rápido cursinho de como essa gente trabalha. Como são rápidos em seduzir, se infiltrar, enfiar suas motosserras por entre as idéias da gente. Tudo em nome do progresso...Fizemos em três horas uma viagem que por barco dura quase 24. Ao chegarmos, uma comitiva da Prefeitura nos esperava para nos levar ao Hotel da Fátima, o Akinos...Mas essa é uma outra história...

quinta-feira, novembro 03, 2005

Gurupá: 1º 24' 29"S e 51º 38' 27" W




Pra início de continuação de conversa publico uma pequena retificação feita por Mariângela sobre o post inaugural:” ... A indicação de Gurupá foi uma sugestão do prof Floriano... ele tinha diversas comunidades onde a tecnologia da borracha era aplicada e disse que o município que estava mais precisando de ajuda e que Gurupá era um lugar maravilhoso. Aí, eu fui conferir se o Alfabetização Solidária tinha apoio para este município e ele estava na lista de espera de patrocínio. O Guimarães só tomou conhecimento disso depois que nós já estávamos fechados e vcs. já estavam desenvolvendo a parte de arte e cultura...
Retificação feita, continuamos com os preparativos para a história da nossa primeira viagem a Gurupá... com a indicação de latitude e longitude acima, qualquer um que tenha instalado o Google Earth em seu computador pode ver a imagem (de satélite) de Gurupá, em segundos. No mundo real, chegar à Gurupá é infinitamente mais difícil. Não há caminho por terra para lá. Não há estradas. Só pelo rio: fica a 24 horas (de barco de carreira) por rio ou 3:00 de avião (vôo fretado ou linha irregular, em monomotores de táxi aéreo) de Belém do Pará.
A dificuldade maior era não saber exatamente o que podíamos esperar desse mundo desconhecido, incrustado na foz do maior rio do mundo, no meio da maior floresta tropical do mundo. Nos preparamos como pudemos para uma expedição à floresta. Redes de acampamento com mosquiteiro, cantis, botas, roupas de “tectel”, repelentes, remédios (até uma “vacina homeopática”, contra malária usada com sicesso por um amigo nosso em viagem ao Benim/África, a Ipeca c 12), fora os equipamentos de captação de imagens, máquina fotográfica digital (itens incluído no contratado para ser fornecido pela empresa contratante e não fornecido...), e câmera de vídeo (compra autorizada pela gerência do empresa que nos contratou para o projeto e que nunca reembolsada...), lap top e celular, (fornecidos pela empresa, tínhamos solicitado rádio tipo nextel mas não rolou).

terça-feira, novembro 01, 2005

O começo da história.


Tudo começou com uma visita de nossa amiga Mariangela de Carvalho ao Prof. Guimarães,assessor do Frei Beto, então Ministro-Chefe da Secretaria Especial da Presidência da República, para oferecer um programa de Responsabilidade Social da empresa em que ela trabalhava como projeto piloto do "Fome Zero".
Na oportunidade, o Prof. Guimarães desenhou para ela o modelo que estava sendo proposto ao Brasil pela Secretaria. A idéia básica era a de que os municípios abaixo da linha da pobreza teriam que ser atendidos por projetos que levassem em conta quatro áreas do desenvolvimento, simultaneamente:
-Saúde e Saneamento
-Educação e Capacitação
-Protagonismo e Empreendedorismo
-Cultura e Arte
O próprio prof. Guimarães indicou Gurupá como uma das comunidades mais necessitadas de um Projeto que pudesse dar corpo à estas idéias.
Na proposta inicial, como quase sempre, cultura e arte vinham no fim, quando saúde, educação e empreendedorismo já estavissem em evolução.Uma azeitona na empada.
Mariangela então,(é preciso seja dado este mérito) que já trabalhara conosco em outo Projeto centrado em arte quando estava no seu emprego anterior, chamou-nos e contratou-nos para inverter o vetor deste processo. A arte e a cultura, na visão dela, seria o desencadeador dos outros processos, inclusive ficando a primeira abordagem e levantamento da pesquisa e informação sobre a comunidade à nosso cargo, da dupla Odilon e Malou, que fazíamos a ORM Organização e Arte. Santo Antônio de Gurupá foi município escolhido para o projeto piloto(a idéia era a de que o Projeto pudesse ser implantado uma vez aprovado, em muitos outras comunidades ribeirinhas da amazônia). E então, levantamos o maior número de informações que podíamos sobre a localidade e com alguma experiência que tínhamos sobre o Pará (tinhamos morado dois anos em Belém entre 84 e 86) e a orientação do Prefeito da Cidade e de seu Secretário da Agricultura, que conhecemos na cerimônia pública de assinatura dos contratos e da carta de intenções firmada entre a empresa e a Prefeitura, embarcamos para nossa primeira viagem à Gurupá. Ia começar uma das experiências mais fortes da nossas vidas de artistas...